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Sol entrar,
desembarcar
da carne iluminada do dia,
dizer nada, dizer tudo.
A palavra anuncia,
é caminho onde navego
onde não quero, onde quero.
Bendita maré, onde cala
depois do cais, a alquimia.
Chegar, partir, ficar.
Velas, fantasmas de fronteiras,
rezas bandeiras doutra história.
Tens na imagem, púrpura e ousadia,
e o sonho que te liberta.

Cedo a travessia mostrou,
não existe cais,
existe o mar.
Mar e vento.
Não existe paz.
Há que conquistar marés,
acordos de tombadilho
Forças a carregar
a alma mais longe,
mar adentro, mar abaixo,
viver é preciso
Cedo o mar mostrou
memórias que matam.
Não existe alma gentil,
há terra longe.
Vale a pena o pássaro?
Ramo verde carregado pelo sal,
na boca ainda lembra,
existe o cais.
E vejo-me fazendo a viagem de volta,
colando ponteiro em bússola,
acordando para trás relógios e rotas,
tomando imagens de Nossa Senhora,
- Protegei os navegantes,
eles não sabem o que fazem-
das Indias, das especiarias, das tormentas.
O oceano calmo, o oceano ânimo,
e eu a respirar debaixo d'água,
e eu a voltar para a terra de onde nunca saí.
Que porto me acolherá?
Será noite, será norte?
Será a terra que divisava outra terra dividida,
metade tua, metade alheia?
E eu a soprar velas e eu a abanar lágrimas.
E a terra a se afastar e o mar a se apartar,
e o porto e o destino.
O mundo é o mar, e eu querendo voltar,
e eu querendo...
Ilusão e história
lúcida memória,
clara e súbita
subitamente sinto
agudo e doloroso
o peso do velho mundo.
Nas entranhas
sífilis e pus,
da memória original
degredo e abandono.
Da tela escorre
terra à vista,
memória afogada
na primeira missa.
Ilusão e história
sêmen
amém.
Aqui onde a terra finda,
fico como quem ama.
De tanto imaginar
o amado tornar-se.
De mais amar,
sonhar o início,
tornar e voltar,
à rota do precipício.
Sendo só e sendo vento,
tornar-se uno,
nenhum evento,
além do falso fundo.
Chegando único,
chega-se ao nada.
Nada como fim,
do próprio voo solitário.
Onde estão os dias?
Onde estão as luas?
O ser alado, deitando fora
sopro e asa, retorna-se.
Do que uma alma é feita,
um cesto em alto mar,
calmarias e vendavais?
E a tinta verde que funde
o fundo azul da alma
na chama do horizonte?
Longe a terra delicada...
Temo por minh'alma
que sem mais nada
pequena e inventada,
não possa nela ancorar.

Tem uma coisa que vi
que não quero desver,
uma lembrança
que não quero esquecer,
um lugar que não quero
deixar,
alma silenciosa.
Tem um mar que atravessei
que me atravessou,
um sal entranhado na pele
que não quero raspar,
uma viagem que mingua
a lua,
alma inquieta.
E por não saber,
a cada manhã acordo
com a mesma imagem,
da noite clara e distante
no mapa do céu invernal
onde naufraguei,
alma cansada!